Descobri esses dias que uma das dificuldades de escrever (e estudar) sobre a internet é o fato dela ser extremamente efêmera. Não a internet em si, é claro, essa permanece intacta (pelo menos por hora, enquanto o SOPA não é aprovado), mas as coisas na internet vão e vêm muito rápido, de forma que, qualquer assunto é capaz de virar um “boom” em poucos dias. Até semana passada, a bola da vez era o michel teló. Por conta de uma reportagem da época em que se dizia que ele representava a “cultura brasileira”, milhares de internautas ficaram enfurecidos e fizeram dele um “trending topic” quase eterno (em se tratando de internet) no twitter.
Michel teló, todo mundo deve saber, é aquele moçoilo que estourou no brasil com o hit “fugidinha”, no ano passado, e ganhou o Brasil (e o mundo), com o tal do “ai se eu te pego”. Verdade seja dita, você gostando ou detestando sertanejo, alguma vez na vida você já deve ter usado (ou pelo menos ouvido) o bordão “ai se eu te pego”, ou quem sabe “delícia, assim você me mata”. Fato é que “ai se eu te pego” tem versões em inglês (essa gravada pelo próprio michel teló), em francês, em holandês, e em quase qualquer outra língua que você imaginar. Até os soldados lá em Israel se renderam ao ritmo do ex-vocalista do grupo tradição e caíram no ritmo do “ai se eu te pego”. Isso rendeu ao moço (pelo que se ouve falar), bastante fama, top nas paradas de alguns países (inclusive na inglaterra dizem que ele desbancou a adele, o que gerou uma campanha no facebook dizendo que a europa tá em crise mesmo), e essa já falada matéria na época dizendo que, se o michel teló ainda não te pegou ele ainda vai te pegar. Mas disso todo mundo sabe. O que irritou a massa twitteira, internautica e faceboqueira foi o fato de dizerem que esse moço aí, que fica cantando “delícia, assim você me mata” representa a cultura do nosso país. Porque de alguma forma, as pessoa se sentiam um pouco ultrajadas dessa música de seis ou sete versos (nunca parei pra contar) e de melodia contagiante representar esse país varonil.
E aí, o michel teló cantando “ai se eu te pego” representa ou não a cultura do país? Espera. A gente sabe o que é cultura? Segundo Edward B. Tylor cultura é “aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Aquele todo. Ou seja, o que podemos talvez tirar disso é que, o michel teló, é claro, não representa toda a cultura de um país, mas faz parte dela. É claro que existe uma parcela da população (e essa parcela parece ser a maioritária em redes sociais, talvez pela facilidade de acesso e também porque o twitter – principalmente no que diz respeito aos formadores de opinião dessa rede – é criado por uns nichos bastante heterogêneos e fechados) que despreza e desprezará não só o michel teló, mas as manifestações mais, por dizer assim, “populares” com bastante veemência. Mas o que não se pode negar é que, se esse cara faz sucesso (e diga-se de passagem, um monte de sucesso) é porque alguma coisa desse povo ele representa. O que é complicado – e ampliado – na internet é como as pessoas ficam um pouco (ou um tanto) intransigentes com a opinião alheia, além de terem uma necessidade de sempre compartilhar a própria opinião e mais: ter uma opinião. Michel teló foi comentado – e muito comentado – no twitter e no facebook de forma que, em alguns dias (talvez em um dia só) foram criadas contra-correntes falando mal de quem estava falando mal de michel teló.
A grande verdade é que o michel teló não tem culpa de nada. Ele fez uma música, a galera gostou e ele virou uma espécie de meme. Essa coisa da internet que todo mundo compartilha e todo mundo fala sobre. Acontece que, enquanto tem gente falando mal, tem gente curtindo, gente dançando ao som e embalando amores enquanto ouve “ai se eu te pego” ou qualquer outra canção do moço. E o michel teló, tão comentado, não deve nem estar assim tão chateado com essa exposição toda. Deve até estar feliz. Porque faz sucesso, tem (muita) gente que gosta da música dele, e tem um holandês cantando a música dele até, veja só. Quem se exalta é o povo da internet, que diga-se de passagem, está sempre exaltado com alguma coisa. Ontem mesmo eles estavam exaltados com uma tal de luíza, que não estava aqui porque tinha ido pro canadá. A luiza foi pro canadá e a gente teve tempo de descansar um pouco os ouvidos do michel teló (e do estupro do bbb). Todo mundo estava falando da luíza. Menos a luíza, que estava no canadá.
Calma. Isso tudo foi um meme que surgiu porque o pai da luiza gravou lá na paraíba um comercial em que ele dizia que a família toda estava lá “menos a luíza, que está no canadá”. Sabe-se lá quem começou a febre da Luiza, mas fato é que em poucas horas todo mundo estava aí, menos a Luiza. Isso foi anteontem. Ontem enquanto algumas pessoas ainda se divertiam bradando o meme de luiza, outras tantas já diziam que não aguentavam mais falar da tal da Luiza, lá do Canadá. Mais ou menos do mesmo jeito que, na semana passada, ninguém mais aguentava ouvir sobre o pobre do michel teló. Hoje a Luiza voltou, apareceu no jornal hoje, teve seus 15 minutos de fama e amanhã, provavelmente, já estará bem perto de ser esquecida. Porque os assuntos da internet são assim. Importantíssimos na hora, mas depois somem.
Daí que todo mundo que estava muito preocupado com o fato de dizerem que o michel teló representa a cultura do país, depois ficou muito preocupado com a moça que foi (ou não foi) estuprada no big brother e hoje saudam a volta de luiza pro brasil (e talvez a morte do meme). Amanhã, quem sabe o que será. Enquanto tudo isso acontece “ai se eu te pego” continua tocando em todo em qualquer lugar, o michel teló tem shows marcados em vários outros países, e tem gente que é bastante feliz ao som dessa musiquinha chiclete. E não tem porquê maldizer essa gente, e nem o michel teló, porque de certa forma ele representa sim, o gosto de certa parte da população e por isso também faz parte da cultura. A cultura não é feito só de coisas que a gente gosta e nem tudo que a gente gosta (ou considera bom) faz parte da cultura.
Tudo é muito efêmero na internet, tanto que eu sei que esse texto vai estar tratando de um assunto velho, daqui duas semanas. Daqui um ano então, será completamente obsoleto. Enquanto isso passa um carro tocando “ai se eu te pego” aqui na minha rua, e o michel teló deve estar tocando em alguma parte do Brasil (ou do mundo), e por enquanto boa parte do mundo sabe quem ele é. Até a luiza, que está no Canadá.